Orientação às Tendências

Esse capítulo destina-se a abordagem que melhor descreve a natureza, a orientada às tendências. A ciência é uma atividade exclusivamente descritiva, todas as prescrições são sobre seus métodos. A ciência descreve em termos de necessidade e universalidade, fornece descrição econômica do comportamento da natureza em suas transformações através do tempo de modo que, a partir das condições de um sistema em um dado momento, podemos ter conhecimento aproximado do passado e futuro (predição). Na verdade hoje temos peculiaridades que restringem métodos distintos para ciências específicas, algumas que incluem particulares (ex. determinado evento específico) como em narrativas históricas. A Teoria do Design Inteligente é uma ciência observacional, como a astronomia e geologia, descrevendo características de seu objeto de estudo. No entanto, são possíveis alguns experimentos e testes conforme a perspectiva adotada. A ausência de evidência dos eventos de instanciação e o desconhecimento de pelo menos uma agência específica são levantados como objeção ao design, mas não configuram impedimento para a teoria.

Na natureza existem tendências dominantes, as tendências resultam das leis naturais e exibem fortes regularidades. Incontáveis padrões são formados pela combinação dessas tendências, as ocorrências apresentam um gradiente de frequência. Existem padrões comuns, padrões raros e padrões que não ocorrem nas mais diversas condições e variáveis. A frequência dos padrões pode ser intuitivamente considerada desde ocorrências abundantes até padrões que simplesmente não se formam (impossibilidade nomológica*).

Existem eventos que simplesmente não ocorrem.

Os padrões de design também apresentam um incontável número de formas, porém muito menor que as de origem puramente fisicodinâmica. O design apresenta uma regularidade própria, distinta das regularidades fisicodinâmicas, de modo que a estocasticidade pode ser descartada como fonte de sua formação.

O comportamento de um sistema, um conjunto de atividades com suas tendências, produz como efeito padrões específicos em sua área de abrangência, padrões formados que “denunciam” um tipo de atividade específica. Os padrões formados, por sua vez, passam a participar do comportamento do sistema, e a tendência final é o equilíbrio. Desta forma é possível inferir sobre a procedência de estruturas e compostos a partir de composição ou configuração, entre outras formas. Por exemplo, a partir de informações de composição foi possível a inferência inequívoca de que vários meteoritos que caíram na Terra tem origem em Marte[1].


* Impossibilidade nomológica é algo que é impossível cientificamente.

11.1 Padrões de Design

Analisando a natureza podemos distinguir o design em pelo menos um entre quatro aspectos: composição (teor), disposição (em sequências), configuração (organização) e comportamento. O último aspecto, comportamento, produz os padrões presentes nos três primeiros e não é avaliado nos termos de um “Teste de Turing” visto que tanto o comportamento de máquina quanto o comportamento humano exibem padrões de design (salvo ao mimetizarem a natureza). Esses quatro aspectos são onde claramente o design se distingue dos padrões naturais.

O design apresenta um paradoxo quanto a sua origem: se desconhece origem de design fora do design. Os elementos de design são produtos de algum tratamento o qual, invariavelmente, depende de outros elementos de design. Num contexto biológico, é sempre produto da esteira de eventos presente na interdependência entre informação, compartimentação e metabolismo. Sabemos que dependência, assim como “controles” ou “predefinições”, não existe no contexto natural, somente no contexto cibernético.

A orientação às tendências revela o processo de formação do design como um desenvolvimento e não evolução, um resultado de tratamento na esteira de eventos como proposto anteriormente. A partir de cenários naturais, ou mesmo de um cenário ideal, o alcance de “estágios intermediários” para os padrões de design, mesmo como processo imaginativo, se apresenta como um desenvolvimento.

Os padrões de design de distinção segura são compostos. A verdade é que existem padrões singulares que podem ser reconhecidos como um sinal design (por exemplo um risco ou um corte), mas desde o capítulo 7 defini a composição pra evitar casos difíceis. Um risco na parte da areia molhada na praia é formado por um sulco. Um sulco por si só não constitui design, mas o contexto apresenta a peculiaridade que permite essa inferência. O vento e as ondas não fariam esse risco. Mesmo um círculo de pedras esféricas num campo configura design. Nenhuma das pedras é design, por que o círculo configuraria design? A inferência vem da experiência repetida e uniforme das tendências naturais.

Se buscarmos causas naturais elas são eliminadas facilmente entre as múltiplas hipóteses concorrentes. Mas, se nenhum padrão de design se forma na natureza, como eles surgiram?

Padrões de design, mesmo os mais simples como os símbolos de escrita, são estranhos a natureza. Estruturas de design biológico como peptídeos e RNA, bases de hipóteses emergentistas, também não ocorrem na natureza e são essas estruturas que deveriam emergir espontaneamente nas condições propícias. A ideia proposta aqui é a de origem exclusiva dos padrões de design por tratamento.

Regredindo na cadeia causal percebemos que os padrões de design primordiais estão nas estruturas biológicas. Graças ao tratamento que essas estruturas dão aos substratos novas estruturas de design são compostas e a perpetuação dos padrões de design é assegurada. Também é graças ao design biológico que nós podemos conceber nossos produtos, que também carregam os sinais de design. A solução para a origem dos padrões de design será, portanto, a mesma da origem do design biológico. As estruturas biológicas, desde as mais fundamentais, exibem padrões de design inequívoco porque contemplam todas formas distinguíveis, seja em composição, sequências informacionais, configuração ou comportamento (desenvolvimento).

O que poderia ser um elemento de design? Eu sempre usei o exemplo de um tetrâmero de RNA, mas poderia ser um peptídeo linear de doze monômeros*. O critério é arbitrário, mas distante da capacidade da natureza, mesmo estruturas menores nesse sentido não se formam. Uma única molécula de RNA seria digna de ser considerada design. Não que ela pudesse desencadear uma esteira de eventos, muito pelo contrário, mas encontrar uma molécula dessas na natureza demonstraria que ela pode surgir “espontaneamente” como especulam os especialistas. A verdade é que não foi encontrada qualquer molécula de RNA e se colocarmos alguma em um cenário pré-biótico ela seguirá a tendência conhecida por nossa experiência repetida e uniforme de degradação.

Exemplo de nucleotídeo de RNA.

Cada monômero de RNA (nucleotídeo) é composto por 3 partes distintas: uma base nitrogenada, uma ribose e um fosfato. Alguns desses compostos já foram encontrados na natureza, mas sequer um nucleosídeo, que seria apenas a ribose e a base nitrogenada, foi encontrado para demonstrar alguma tendência na direção do RNA. Um simples tetrâmero de RNA é algo que provavelmente nunca será observado na natureza. Como resultado de 12 anos de trabalho um artigo foi publicado em 2009[2] demonstrando um caminho muito específico para formar uma molécula de RNA. As “condições consistentes com a Terra primitiva” não dão conta do cenário irrealístico dos experimentos desta natureza. O ambiente controlado não é nem um pouco consistente com um ambiente real, seu comportamento, suas impurezas e contingências.

Nos termos de informação, compartimentação e metabolismo, apresentados no capítulo anterior, o contexto cibernético é instanciado na natureza em organização e se desenvolve na natureza na forma de esteira de eventos (retroalimentação e tratamento). Orgel aborda a importância de ‘ciclos’ com estruturas de tratamento que não sejam alteradas no processo, ele busca nitidamente a retroalimentação e o tratamento de uma esteira de eventos:

“Ciclos ocorrem de forma generalizada em todos os ramos da química. A definição de um catalisador tal como um agente que facilita a conversão dos reagentes em produtos sem que ele próprio ser mudado quase garante que um catalisador que pode iniciar sucessivas ‘ciclos’ de a mesma reação. Ciclos metabólicos são diferentes. Estritamente, eles são, por definição restritos a bioquímica. Como ciclos catalíticos, eles também resultam em conversões de substratos utilizadas em produtos, mas eles envolvem sequências muito mais complexas de reações químicas.” – Lislie E. Orgel (2008)

Uma esteira de eventos depende de ferramentas que construam e mantenham a estrutura do sistema. Na biologia essas ferramentas são as enzimas, existem enzimas de proteínas e de RNA, as ribozimas. Essas macromoléculas catalisam reações como formar e destruir ligações, transferir moléculas, transformar moléculas, entre outras, são atividades de construção (anabólise) e degradação (catabólise) que constituem o metabolismo. Essas estruturas apresentam design biológico qual nenhuma tendência é favorável, ao contrário, as tendências são contrárias a ele, é suscetível ao tempo. Mas se não é a tendência e as tendências são contrárias, então, essas estruturas não se formam? Exatamente, nenhuma dessas estruturas é encontrada na natureza.

11.2 Tendências

A tendência dos sistemas evoluírem, conforme as condições e estado inicial, para uma configuração específica é denominada teleomatismo. A origem de padrões de design a partir da natureza deve apresentar um caminho viável que, por meio de cenários plausíveis, configure um teleomatismo rumo ao design. As regularidades da natureza em seu comportamento permitem predições e a descrição dos limites da evolução dos sistemas com acurácia. Um trabalho clássico nesse sentido é o limite descrito por Sadi Carnot (fundador da Termodinâmica) na interconversão entre trabalho e calor em máquinas térmicas. Equações Diferenciais são utilizadas para descrever os comportamentos e tendências dos sistemas.

A orientação às tendências considera a plausibilidade do estado inicial do sistema e dos processos que ocorrem nesse sistema. Entradas irrealísticas e processos incomuns devem ser justificados através de uma cadeia de eventos integralmente plausível. A ausência de detalhamento oculta os saltos que ocorrem exatamente em potenciais impossibilidades nomológicas nas hipóteses. Essa orientação nos poupa de esforço exaustivo na descrição dos fenômenos naturais pela possibilidade de escolha dos melhores cenários, nas melhores condições e melhores rotas para o efeito esperado a fim de se suportar uma determinada especulação. Ciência é descrição, inclusive de limites.

O objetivo das pesquisas sobre origem de sistemas biológicos é tecnicamente a formação de padrões de design. A partir de cenários ditos plausíveis uma emergência de padrões arbitrários é perseguida. Cada segmento de evolução de sistemas possui condições iniciais (Si) e um condições finais (Sf). Não temos algo que desconhecemos por inteiro, pelo contrário, conhecemos ou propomos A e B, as questões recaem em processos ditos desconhecidos. Desconhecidos porque ou apresentam raridade de ocorrência, ou simplesmente não ocorrem configurando impossibilidade nomológica. A “prova real” são os dados empíricos. A transformação de um sistema configura uma cadeia de cenários distintos ao longo do tempo. Um cenário (Sn) é plausível se tem origem em uma cadeia de cenários plausíveis em todas as suas transformações (Si > Si + 1 …Sn). Por cenário se entenda “as condições e elementos do sistema em um dado momento”.

O que temos na natureza? Em pequenas quantidades temos algumas moléculas usadas como substrato na vida, como não são abundantes na natureza organismos as sintetizam. O otimismo toma conta da comunidade científica o modo de exposição transforma esses elementos necessários em indícios de suficiência para o senso comum. Verdadeiros ativistas comemoram cada descoberta tecnicamente insignificante como um grande passo, também assim são expostas em manchetes como: “Descoberto elemento crucial para a origem da vida”. Esses compostos ocorrem normalmente em maior abundância em meteoritos, porém em proporções ínfimas em meio a uma miscelânea de outros compostos.

A partir de cenários conhecidos nenhuma esteira de eventos é concebível. Em todas as exemplificações de suficiência da natureza existem notáveis desprezos às proporções reais e a superestimação da especificidade dos processos estocásticos em um otimismo religioso. Tudo isso implica em conclusões que fogem a realidade. Um exemplo de possível desconsideração de proporções é um software chamado Avida, que simula a evolução biológica darwiniana. Deve-se checar as relações internas, não só em coerência mas em proporções, e analisar a correspondência com a realidade biológica em valores. Se um dia tiver a oportunidade, farei. A intuição é de que será reprovado.

Especulações não podem entrar em atrito com dados empíricos. As hipóteses de suporte da origem da vida por emergência possuem atritos com as tendências dos sistemas, seja em plausibilidade ou em probabilidade. Ir contra as tendências é procurar por cenários irrealísticos, com condições incomuns que fomentam padrões incomuns na natureza. Devemos observar não só as causas em operação hoje, como propôs Lyell, mas também os recursos encontrados na natureza e, a partir deles, fazer a melhor inferência, sem saltos. A verdade é que a natureza passa longe das estruturas de design, o apelo a eventos potencialmente destrutivos, como impacto de cometas, exemplifica a dificuldade, nas palavras do Dr. Mark Burchell:

“Esta é uma nova peça que contribui significativamente para o emocionante campo da origem de moléculas complexas na Terra. Temos visto que o choque (de cometas) pode gerar e quebrar ligações em compostos orgânicos. … Existem duas peças-chave para desvendar esta história: as moléculas complexas e como elas são inicialmente geradas e, em seguida, como elas sobrevivem e evoluem.”

Pode parecer que não é algo sério, mas sim, existe esta esperança de que mesmo impacto de cometas colaborem na construção de macromoléculas. Esse nível de insanidade se deve ao compromisso de que as coisas devem ser assim. E é interessante quando alguém imerso nesses temas expressa a realidade da pesquisa de forma clara temos isso: não sabemos como surgem, como “sobrevivem” e como evoluem, mas temos dezenas de milhares de experimentos sobre isso. É a evidência de ausência de qualquer tendência para isso demonstrada continuamente e ainda segue, cada vez mais distante das ocorrências de maior probabilidade e plausibilidade.

Quando temos uma publicação, na descrição dos experimentos, a seção de métodos e materiais apresenta as entradas irrealísticas que, em qualquer análise séria, configuram design. Na verdade qualquer pessoa com alguma noção sobre o assunto consegue perceber que as condições iniciais não são naturais, apesar das reivindicações de plausibilidade.


* Para equivaler às 12 moléculas que formam o tetrâmero de RNA.

11.3 Método para Composição

Apesar da complexidade especificada (se assim tratarmos os padrões de design) ser uma qualidade, um valor probabilístico limiar deve indicar sua ocorrência. Como observado nos gráficos sobre a natureza informacional das sequências, a diferença entre ordem, aleatoriedade e a categoria funcional ficavam claras conforme o aumento do volume de dados. Os métodos possíveis de análise da origem de um determinado composto ou estrutura são (1) Composição, (2) Disposição (sequência) e (3) Configuração. A primeira, composição, é a mais simples e pode ser estendida inequivocamente. É extremamente confiável, podemos conferir isso em poucas linhas usando o exemplo do excesso enantiomérico.

Chamamos enantiômero a molécula que apresenta duas formas, L (esquerda) e D (direita). Essas moléculas ocorrem na natureza em proporções bem conhecidas, normalmente sem grande predominância numérica de uma forma sobre a outra. Algumas tendências que favorecem a predominância de uma das formas foram observadas, mas nada que resulte em uma pureza acentuada. A poção com pureza é chamada ‘homoquiral’. A vida apresenta pureza 100% de uma das formas em seu cerne.

Enantiômeros ilustrados através de analogia com as duas mãos humanas.

Experimentos que simulam síntese de peptídeos já se iniciam com pureza enantiomérica, o que vai contra a alegada plausibilidade. Os experimentos de origem da pureza enantiomérica também se iniciam com condições implausíveis, em uma publicação utilizada contra Eberlin (por ele ter participado) o experimento se inicia com um cenário rico em serina (tanto D quanto L), porém este é um cenário totalmente irrealístico[3]. No trecho abaixo Bada infere a origem biológica de aminoácidos por meio da composição enantiomérica:

“Embora tenham sido detectados aminoácidos em alguns fluidos hidrotermais a composição enantiomérica destes indica que eles sejam de origem biológica e não produtos de química abiótica.” – Jeffrey L. Bada[4]

Encontrar uma poção homoquiral em qualquer ponto do Universo seria evidência clara de design. Experimentos de síntese pré-biótica começam com pureza no nível máximo, condições iniciais de puro design, um cenário irrealístico e incompatível com a melhor expectativa sobre a tendência dos ambientes. Uma trajetória clara de qualquer experimento começa com seus compostos com alta pureza e decaí para um nível menor por acúmulo de resíduos variados. Essas informações são facilmente encontrados nos métodos e materiais e nas conclusões.

Onde qualquer suposto produto de “auto-organização” (auto-ordenação na verdade), não passa de uma transformação das entradas de design para alguma composição heterogênea, com crescente acúmulo de resíduos que não figuram acima do limiar do design. Mas qual seria o limiar do design?

As tendências estocásticas, isso é, o comportamento da natureza, apresenta padrões dominantes, os padrões de inteligência distinguíveis são contrários às tendências fisicodinâmicas em geral. Dembski estipulou a ocorrência de design em uma entre 10^150 eventos, que é um dos valores citados por Abel acerca de uma métrica universal de plausibilidade[5]. Depois Dembski baixou esse limite para um entre 10^120[6]. Eu fixei um espaço amostral de 2^512 (> 10^154). Então, a razão entre esses dois valores, 2^512 e 10^120, que é 10^34 (Ω), será o número de ocorrências de design em 2^512.

Limiar de Design no caso da pureza enantiomérica.

O valor fixado em base binária pode ser aplicado facilmente em ocorrências de dois valores, como é o caso da pureza enantiomérica. Existem 2^512 possibilidades para os 512 aminoácidos ocorrerem na natureza. Além das tendências naturais a própria probabilidade de um centro de equilíbrio no número de cada forma enantiomérica torna o cenário para a homoquiralidade distante. O valor tomado para o limiar do design, 1 em 10^120, cobre um número de 17 enantiômeros opostos em cada 512 aminoácidos. Isso permite fixar um faixa de valores de 3,32 %, que vai de 100 % até 96,68 % de pureza (0 a 17 aa). Expresso como excesso enantiomérico consta como 93,36 % (96,68 menos 3,32). Esse seria o limiar do design nesse caso específico, a verdade é que é restritivo e os padrões de design provavelmente tem uma abrangência maior.

Entre (a) e (b) temos as ocorrências mais frequentes de desequilíbrio enantiomérico, como nos meteoritos Murchison (2.8–9.2%) and Murray (1.0–6.0%), entre (b) e (c) temos raras ocorrências, seriam valores de enriquecimento maior. Entre (c) e (d) temos exclusivamente experimentos controlados com entradas irrealísticas, produções de laboratórios especializados e, no limite da pureza (d), a vida.

Em 2013 encontrei um artigo sobre um peptídeo que faria uma seleção enantiomérica: A chiroselective peptide replicator[7], a “habilidade racional no design” conseguiu reverter a introdução de 1 enantiômero distinto entre 32 aminoácidos de um peptídeo alfa-hélice:

“Aqui mostramos que um peptídeos replicante de 32 resíduos, concebido de acordo com os princípios anteriores, é capaz de amplificar eficientemente produtos homoquirais a partir de uma mistura racémica de fragmentos peptídicos através de um ciclo autocatalítico quirosseletivo.”

É visível que tudo configura design: condições iniciais, métodos, o próprio peptídeo que foi sintetizado, o objetivo e até as próprias mutações. Contudo na época eu desconhecia qualquer valor seguro o qual pudesse apresentar como limiar para o design. Hoje, com ideia desse gradiente de valores sei que uma composição de 32 aminoácidos onde 1 é um enantiômero oposto está acima do limiar do design, pois isso equivale a 3,125 %. Esse valor como limiar pode parecer alto demais e extremamente exclusivo, mas é seguro e inequívoco. A conclusão do artigo dizia:

“Assim, mostramos que mesmo dentro da estrutura em espiral simples um peptídeo replicador pode conter um rico grau de informação que lhe permite apresentar, ao nível molecular, algumas das características básicas de sistemas vivos, tais como a autorreplicação, homoquiralidade e resistência na acumulação de erros (mutações estereoquímicas)”.

O rico grau de informação, que caracteriza o design, propicia uma cadeia de eventos de curta duração com algum tratamento (no caso, seletividade). Os seres vivos tem sua própria esteira de eventos para sintetizar os aminoácidos. Eles não dependem (e nem poderiam depender) de processos naturais. Quando falamos em natureza, processos naturais, não estamos usando a acepção de natureza como “universo físico e seus fenômenos”, mas natureza como conjunto restante de causas excluída a inteligência. Nessa perspectiva, as tendências dos sistemas puramente físicos dominam todo o Universo e são distintas das tendências encontradas no contexto cibernético e aos padrões de design. Na Ciência a eliminação de cenários inviáveis é fundamental para evitar uma ‘busca exaustiva’. Mera possibilidade também não sustenta uma narrativa, o compromisso é com a descrição da natureza.


(Ω) 10^34,12735777995837194943431409894

11.4 Impondo a Cosmovisão: Teoria vs Realidade

“Este capítulo destina-se a demonstrar o poder dessa seleção cumulativa como um processo fundamentalmente não aleatório.

Caminhando por uma praia pedregosa, podemos notar que as pedras não estão dispostas a esmo. As menores tendem a ser encontradas em zonas separadas, acompanhando a linha da praia, e as maiores em zonas ou faixas diferentes. Essas pedras foram classificadas, organizadas, selecionadas. Uma tribo que habita o litoral poderia refletir sobre esse indício de classificação ou organização no mundo e desenvolver um mito para explicá-la; talvez a atribuíssem a um Grande Espírito celeste metódico e organizado.

É possível que sorríssemos com superioridade diante dessa ideia supersticiosa e explicássemos que a disposição das pedras na verdade foi produto das forças cegas da física – neste caso, da ação das ondas. As ondas não têm propósitos nem intenções, não têm mente metódica, não têm mente nenhuma. Simplesmente jogam as pedras com força na praia, e, como pedras grandes e pedras pequenas sofrem efeitos diferentes com esse tratamento, acabam parando em níveis diferentes na areia. Um pouquinho de ordem surgiu da desordem sem que alguma mente houvesse planejado esse resultado.

As ondas e as pedras constituem, juntas, um exemplo simples de um sistema que gera automaticamente uma não-aleatoriedade.” – Richard Dawkins

Bom… o que dizer? Esse é um dos exemplos do poder da imaginação sobre a realidade. A literatura está repleta, mas esse excerto ilustra da melhor forma possível o poder de distorção da realidade a partir de uma cosmovisão insuficiente. E isso se aplica para tudo. Ninguém jamais viu o exemplo dado, mesmo assim ninguém questionou, criticou, nada. Isso porque esse livro foi publicado em 1986[8], dois anos antes mesmo de eu nascer, e apresenta um bom repertório do poder de distorção da realidade sendo citado milhares de vezes seguindo a finalidade persuasiva.

É comum surgirem ideias totalmente desligadas da realidade nas especulações naturalistas. Esta exemplificada acima é somente uma entre milhares (se não milhões). Em cada detalhe, cada característica, cada propriedade, um mundo à parte é idealizado onde tudo faz sentido no intuito de suporte à teoria estabelecida. Este capítulo apresentou as tendências dos sistemas de modo geral e separa evolução de desenvolvimento de sistemas organizados.

Padrões ordenados são uma das tendências da natureza, mas padrões ordenados arbitrariamente, como imposto na realidade neste caso, é arbitrário. Porque não corresponde as tendências naturais. Há várias suposições teleonômicas rumo a “auto-organização” impostas por vários pesquisadores mundo a fora.

A asserção onde o desejo de suficiência é exposto diz: “Essas pedras foram classificadas, organizadas, selecionadas.”

Esse simples caso ilustrado se estende a todas as outras criações imaginárias de processos simples, exposto o vício do raciocínio são eliminadas emergência e organização a partir de uma “sinuca causal” na raiz. Nós temos hoje um bom conhecimento sobre o produto das transformações da matéria, seja em amostras ou experimentos, conhecemos bem o comportamento da natureza em relação a origem de macromoléculas, surgimento e teor dos compostos. Não há nada na direção do teor (pureza) ou estrutura (configuração) que caracterizam o design biológico. Nada rumo sequer a beirar uma esteira de eventos. Temos sim evidência contrária, repetida e uniforme, qualquer composto refinado lançado a natureza, ou mesmo o conteúdo de um organismo simples, sofre degradação continuamente.

O que acontece é que existem coisas que simplesmente não ocorrem na natureza, então é necessário que não se pense nessa possibilidade (e menos ainda na possibilidade de design).


[1] Treiman, Allan H., James D. Gleason, and Donald D. Bogard. “The SNC meteorites are from Mars.” Planetary and Space Science 48.12 (2000): 1213-1230.
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[2] Powner, Matthew W., Béatrice Gerland, and John D. Sutherland. “Synthesis of activated pyrimidine ribonucleotides in prebiotically plausible conditions.” Nature 459.7244 (2009): 239-242.
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Orgel, Leslie E. “The implausibility of metabolic cycles on the prebiotic Earth.” PLoS Biol 6.1 (2008): e18.

[3] Cooks, R. Graham, et al. “Chiroselective self-directed octamerization of serine: implications for homochirogenesis.” Analytical chemistry 73.15 (2001): 3646-3655.

[4] Bada, Jeffrey L. “New insights into prebiotic chemistry from Stanley Miller’s spark discharge experiments.” Chemical Society Reviews 42.5 (2013): 2186-2196.

[5] Abel, David L. “The universal plausibility metric (UPM) & principle (UPP).” Theoretical Biology and Medical Modelling 6.1 (2009): 1.
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[6] Dembski, William A. “Specification: the pattern that signifies intelligence.” Philosophia Christi 7.2 (2005): 299-343.
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[7] Saghatelian, Alan, et al. “A chiroselective peptide replicator.” Nature 409.6822 (2001): 797-801.
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[8] DAWKINS, Richard. O relojoeiro cego: a teoria da evolução contra o desígnio divino. Companhia das Letras, 2001.

Pizzarello, S., and J. R. Cronin. “Non-racemic amino acids in the Murray and Murchison meteorites.” Geochimica et Cosmochimica Acta 64.2 (2000): 329-338.
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